Formação da 38ª Companhia de Comandos - Lamego

Formação da 38ª Companhia de Comandos
CIOE - Lamego 1972


A 38ª COMPANHIA DE COMANDOS COMEÇA A SER FORMADA NO INÍCIO DE 1972 EM LAMEGO

A FORMAÇÃO DA
38ª COMPANHIA DE COMANDOS

 

Relato feito a partir das memórias do Capitão Comando Pinto Ferreira

Aos meus amigos e companheiros da
38ª Companhia de Comandos



Estas memórias fazem parte de um conjunto mais vasto dum relato aos meus netos da minha passagem pela Guerra do Ultramar (como então se designava).

No entanto entendendo que não fazia sentido privar aqueles que comigo lutaram no inferno da Guiné resolvi divulgar-lhes tudo o que sobre este assunto já escrevi. (Nelas está inserido a minha intervenção no livro do nosso amigo Coronel Bernardo "Guerra, Paz e Fuzilamentos dos Guerreiros" acerca da participação da companhia nas escoltas de Maio de 1973 a Guidage).

Peço que entendam estes escritos como um relato da maneira como vivi as situações porque a Companhia passou e como tal só refiro factos ou aspectos que se passaram à minha volta.

Por isso é natural que possa haver quem apesar de ter estado nas mesmas operações não tenha o mesmo entendimento dos assuntos que eu possa ter, por não os terem vivido na mesma forma como eu os vivi.

Não esqueçam que normalmente segui as situações nos lugares da frente o que me possibilitava um entendimento que quem vinha mais atrás não teria.

Aproveito esta ocasião para mais uma vez me dirigir a todos aqueles que comigo partilharam essa tremenda experiencia de servir Portugal na Guiné nas fileiras da 38CC, o quanto eu apreciei tudo aquilo que deram de vós em termos de coragem de disponibilidade de espírito de sacrifício para que Portugal e Portugueses pudessem beneficiar da nossa acção em tempos tão delicados.

Capitão CMD Pinto Ferreira - Comandante da 38ª Companhia de Comandos



De Lamego até Bissau
Janeiro a Junho 1972


Depois de já ter feito duas comissões no Ultramar em Angola, a primeira numa Companhia de Caçadores no posto de Alferes e a segunda numa Companhia de Comandos (20CC) como Tenente, regressei à Metrópole (Agosto 1971), fui colocado no CIOE onde me juntei aos elementos Comandos que aí estavam no intervalo de comissões.

Tive problemas com o Comando relativamente às funções que me destinou e daí até me oferecer para comandar a 38ªCompanhia de Comandos foi um passo.

A partir desse momento a minha estadia no CIOE estava destinada a ser curta.

Desde o final da minha 2ª comissão em Angola que a Guiné despertava em mim um desafio que tinha a ver com o cenário em que decorria a guerra naquele teatro.

Pelo que constava as diferenças com Angola eram notórias e tudo aquilo que eu detestava em Angola não acontecia na Guiné.

Em Angola encontrar combatentes inimigos era normalmente difícil fazendo-se operações de 4/5 dias onde apenas se encontravam vestígios, acampamentos abandonados etc.… na Guiné tal não acontecia e mesmo junto aos quarteis era normal haver combates.

Não quer isto dizer que em Angola não houvesse acções violentas só que na Guiné podíamos contar com elas todos os dias e em Angola elas eram mais aleatórias o que muitas vezes provocou demasiada descontracção nas nossas forças fazendo com que sofrêssemos inúmeras baixas que não aconteceriam caso fossem respeitados os procedimentos de segurança em vigor.

Havia pois a certeza na Guiné que não se podia baixar a guarda e era necessário empregar sempre todos os nossos conhecimentos tácticos para não entrarmos num beco sem saída.

Foi então nestas circunstâncias que se começou a desenhar a minha comissão na Guiné. Chegado a Lamego em Agosto de 1971 em Março de 72 já tinha o destino traçado.

O que queria dizer que relativamente ao meu curso da Academia iria iniciar a 3ª Comissão quando alguns ainda andavam no meio da 2ª. Mais tarde vim a verificar como o nosso caminho se ia separando, vendo-me na 3ª comissão nas difíceis condições de comandante de uma companhia de intervenção e ao meu lado os oficiais do quadro quase todos em funções de Estado-maior.

Chegou o dia em que a mensagem e respectiva publicação em Ordem de Serviço aconteceu.

Fazia-se o convite para servir como comandante de companhia de comandos no ultramar e que Eu imediatamente aceitei.

A companhia já se tinha começado a concentrar na Cruz Alta, nomeadamente os cadetes, os soldados instruendos e as praças para a frequência do curso.

Era assim que as coisas aconteciam.

Anteriormente tinha sido anunciado a abertura de provas para a frequência do curso de comandos com destino à 38ª Companhia de Comandos.

Os que ficaram apurados foram mandados apresentar no CIOE. Desta vez excepcionalmente cedo pois foram-no no princípio do ano de 72.
(Por razões climáticas os cursos de comandos em Lamego só eram dados no período de Abril a Dezembro).


Os primeiros documentos relativos à mobilização da 38ª CC





Assim estes elementos estiveram a aguardar que o curso se iniciasse com as implicações negativas que daí podiam resultar.

Entretanto sucediam-se as nomeações para as restantes funções da companhia.

Até ao embarque em fins de Junho de 72 ministrou-se a instrução e accionaram-se todos os procedimentos administrativos necessários (sanitários, fardamentos, vencimentos, …).

Pela experiencia que tinha acumulado em termos de instrução de comandos comecei a aperceber-me que a solução de ministrar instrução de comandos no CIOE tinha algumas deficiências que apesar de tentarem ser resolvidas na parte de instrução na Guiné de maneira alguma eram totalmente colmatadas.

Refiro-me é claro em comparação com Angola e com a génese dos cursos de comandos.

Em Lamego não havia o terreno, o clima e o inimigo da Guiné.

Por muito que se fizesse na fase operacional havia erros de formação que muitas vezes só são detectados demasiado tarde.

A instrução totalmente integrada e progressiva ministrada em Angola não podia aqui acontecer e com reflexos para o rendimento operacional.

Não é que ao longo da comissão as coisas não se fossem compondo mas à custa de que sacrifícios.

E tudo se resumia a uma questão de atitude que tinha que ser treinada desde o início.

É fácil na mata do norte de Angola mentalizar o instruendo de que o inimigo está próximo e pode aparecer a qualquer momento, no entanto em Lamego por mais tiros reais que se façam em cima do instruendo mal nos viramos e já ele está vencido pelo cansaço e deixou de estar atento.

Aqui não há o calor abafado que nos sufoca com o ar misturado com pó e cinza das queimadas, com os inúmeros insectos que nos rodeiam o rosto sempre prontos a picar e a zunir à nossa volta.

O calor e a humidade fazem que do alto da cabeça até aos dedos dos pés desça uma humidade que nos trás permanente molhados e que as nossas goelas reclamem água que há que poupar pois só há a que trazemos connosco nos nossos cantis.

Sim só quem viveu a Guiné fora das picadas e fora do arame farpado dos aquartelamentos sabe a que me refiro.

É o carreiro, o trilho que se dirige ou vem directamente do local onde o inimigo se acoita aí onde só podemos contar com nós próprios pois muitas vezes já estamos fora do alcance da nossa artilharia e só a nossa aviação se chegar a tempo nos poderá valer (isto só irá ser válido até Abril de 73 pois com o aparecimento dos mísseis terra ar Strela até esta mezinha deixamos de ter).

Na última semana de Junho em dois voos dos transportes militares (27jun72 e 29jun72) desembarcamos no aeroporto de Bissalanca.

Antes tinha sido a cerimónia de despedida da companhia na parada do Quartel de Santa Cruz depois de uma marcha garbosa pela cidade desde a Cruz Alta.

Descendo a Almacave a 38ª CC desfilou pelas principais ruas de Lamego em direcção ao Quartel de Santa Cruz onde na respectiva parada decorreu a cerimónia de despedida.


Lamego final do curso - Junho 1972

Lamego - Almacave - Despedida de Lamego - Junho 1972

Lamego - Almacave - Despedida de Lamego - Junho 1972

Entrega do Guião da 38ª Companhia de Comandos - Lamego - Junho 1972

 

A GUINÉ

Apesar de ter sido criado em Angola não deixei de estranhar quando em Bissalanca a porta do avião se abriu e aquele jorro de ar quente húmido e mal cheiroso nos envolveu como um soco e vá se lá saber porquê tínhamos que desembarcar de blusão de fazenda e gravata. Mesmo de camisa de meia manga a situação era incómoda.

Ao todo éramos 219 militares dos quais 158 comandos ou prestes a sê-lo.
Cerca de meio batalhão em termos de tropa normal.

6 grupos de combate a 25 elementos com folgas para algumas quebras.


Boeing 707 - TAM - Transportes Aereos Militares
Foto: Manuel Marques da Silva - 1974


DC6 - TAM - Transportes Aereos Militares
Foto: Manuel Marques da Silva - 1974


Figo Maduro - Lisboa - 29 Junho 1972 - Embarque para Bissau da 38ª CC em Boeing 707 dos TAM



AS RELAÇÕES DE EMBARQUE
A primeira leva a 27 Junho 1972 em Boeing 707 dos TAM a segunda leva a 29 Junho 1972 em DC-6.







Por atraso na chegada a Lisboa os quatro furriéis açorianos viram o seu embarque adiado para 12 de Agosto.

A formação com 21 condutores, 3 mecânicos e restantes elementos, ao todo 52 membros.

Durante a comissão por recompletamento iríamos receber formados no CIC – Angola: 1 Oficial e 20 praças, para estágio um alferes do QP e do CIOE 1 alferes miliciano.

Ao todo terão integrado a 38ª CC perto de 250 militares

É claro o número total de presentes foi flutuando entre perdas, férias recompletamentos e outras situações. No final da fase operacional 1 furriel e 9 praças foram eliminados por falta de aptidão comando.

Mantivemo-nos em Bissau até 10jul72 altura em que rumamos a Mansoa para iniciarmos a fase operacional.

Durante a estadia em Bissau recebemos todo o material da companhia bem assim como a documentação.

Era impressionante a nossa coluna.

Imagine-se que para além de todos as viaturas militares (20 Unimogs, 4 Berliets e 2 Jeep) ainda fomos reforçados por viaturas logísticas que nos permitiram transportar o paiol da companhia (muitos cunhetes 7,62 – para as G-3 e met lig , granadas de mão de todos os tipos, de morteiro 60mm, de bazookas, dilagramas, M-40 e M-60mm, etc.) todo um refeitório que incluía bancos e mesas e material de cozinha, camas e colchões para todos material administrativo (secretárias etc.), enfim com as sucessivas rotações fizemos na Guiné diríamos que éramos como um circo que conforme as necessidades operacionais ia mudando de local em local.

Importante durante a estadia em Bissau foi a cerimónia de boas vindas, presidida pelo General Spínola realizada no depósito de Adidos em Brá.

Fiquei mal impressionado com a recepção pois fomos recebidos juntamente com um batalhão de cavalaria que se destinou á zona de Bula.

O dispositivo das forças foi o batalhão à frente e atrás de tudo a 38CC.

O discurso foi 90% cavalaria e no final foi referido que também lá estava uma companhia de comandos.

Engoli em seco e tive que explicar aos meus homens o porquê do discurso.

Em breve tivemos a oportunidade de recordar esta situação pois a actividade desenvolvida pela companhia começou a ser alvo de mensagens elogiosas por parte do Comandante-Chefe enquanto que o batalhão de Bula ia passando por situações cada vez mais embaraçosas e que não vale a pena aqui mencionar.

 

A 38ª CCMDS foi mandada constituir por nota circular nº 3017/ PM de 27Mai72 da 3ª REP/EM/ME tendo como unidade mobilizadora o CIOE da RMP;

 

Seguinte: A Fase Operacional em Mansoa e Cerimónia dos Crachats


Trigésima Oitava Companhia de Comandos
A Sorte Protege os Audazes
Guiné 1972 - 1974

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